4. INTERNACIONAL 2.10.13

1. ELES TM LICANA PARA MATAR?
2. OS FALSOS PROGRESSOS

1. ELES TM LICANA PARA MATAR?
Aproveitando-se de governos enfraquecidos na Somlia e na Sria, os terroristas se reagrupam, recrutam mais jovens no Ocidente e espalham ataques pelo mundo.
TATIANA GIANINI

     O terrorismo islmico no tem mais os meios que permitiram ao saudita Osama bin Laden e sua organizao, a Al Qaeda, perpetrar o maior atentado terrorista da histria, em 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos. O sucesso em difundir globalmente sua ideologia e a capacidade de se adaptar, contudo, comprovam que os terroristas no deixaram de ser uma ameaa real. Dois ataques de grupos vinculados  Al Qaeda na ltima semana tornaram isso evidente. No sbado 21, membros do grupo somaliano Al Shabab ("A Juventude", em rabe) armados com granadas e fuzis invadiram o shopping Westgate, em Nairbi, capital do Qunia, atirando em quem vissem pela frente. O massacre, que durou quatro dias, resultou em 72 mortes e quase 200 feridos, na contagem feita at sexta-feira passada. O outro ataque aconteceu no domingo 22, em Peshawar, no Paquisto. Dois homens-bomba se explodiram na sada de uma igreja anglicana, deixando um saldo de 85 mortos. Foi o mais grave atentado contra a minoria crist do pas. 
     O fato de as cenas de homens, mulheres e crianas ensanguentados ou com o corpo destroado terem ocorrido no Qunia e no Paquisto no confirma, ao contrrio do que pode parecer, a tese do presidente americano Barack Obama de que a Al Qaeda est em declnio e s manteve a capacidade de fazer ataques menores longe do Ocidente. Isso  desmentido tanto pela grande quantidade de estrangeiros mortos no atentado do Qunia  foram feitas vtimas de treze nacionalidades  quanto pelas suspeitas de que havia europeus e americanos entre os assassinos. Alm de expandirem-se para a frica e para a sia, os grupos terroristas esto tendo um apelo crescente entre muulmanos do Ocidente. O seu objetivo continua sendo espalhar a interpretao radical do Isl e destruir os valores ocidentais de liberdade e tolerncia. 
     O atentado no Qunia teve incio no horrio do almoo. Cerca de quinze terroristas armados divididos em dois grupos entraram no centro comercial de cinco andares. Eles chegaram em trs veculos e mataram os guardas que quiseram vistori-los. Com o rosto coberto por pano preto e cartuchos de munio na cintura, deram incio  carnificina. Entre as vtimas, alm de quenianos, havia muitos trabalhadores expatriados que tinham ido ao shopping almoar ou fazer compras. Alguns foram executados a tiros, outros mutilados vivos ou enforcados. Os terroristas tambm atiraram atravs das portas dos banheiros para matar os que buscavam refgio. Os corpos foram empilhados em frente  entrada do shopping com o objetivo de atrapalhar o trabalho das equipes de resgate. Foram feitos refns para servir de escudo humano. Os assassinos poupavam a vida de quem conseguisse provar ser muulmano, desde que citasse trechos do Coro ou o nome da me de Maom, o fundador do Isl. A primeira tentativa da polcia de entrar no edifcio s ocorreu por volta das 4 horas da tarde. 
     O Al Shabab surgiu em 2006 como um brao armado dos tribunais da sharia, a lei islmica, na Somlia, ento assolada por uma guerra civil. No ano passado, o lder do grupo declarou fidelidade  Al Qaeda. A maioria dos membros estrangeiros do grupo vem do Paquisto, Afeganisto, Sudo e Imen. Cada vez mais, porm, a organizao tem alistado ocidentais. Nos Estados Unidos, o Al Shabab recrutou jovens de origem somali cujas famlias se estabeleceram em Minnesota. Desde 2007, mais de vinte homens desse Estado se juntaram ao Al Shabab. Acredita-se que trs americanos suspeitos de envolvimento no ataque ao Westgate sejam de Minnesota. Suspeita-se tambm que uma inglesa, Samantha Lewthwaite, tenha coordenado o ataque. A Interpol emitiu uma ordem de captura. 
     O financiamento do Al Shabab provm da venda de drogas, de roubos, da exportao ilegal de carvo e da extorso  beira das estradas somalianas. "A organizao tambm  apoiada pela Arbia Saudita, pois defende o wahabismo, uma verso radical do Isl patrocinada pela famlia real saudita, e pelo hawala, um sistema informal de transferncia de dinheiro de emigrantes somalianos, como os de Minnesota", diz a americana Nancy Kobrin, autora do livro A Banalidade do Terrorismo Suicida. Desde que comeou a ser combatido por tropas de diversos pases africanos, entre os quais o Qunia, enviadas  Somlia, o Al Shabab perdeu o controle da capital, Mogadscio, mas mantm o domnio sobre um bom pedao do pas, inclusive de uma cidade porturia. Acredita-se que sua ala internacional, hoje, seja at mais forte do que a matriz. 
A expanso da influncia territorial  um fenmeno que acontece tambm com outros grupos ligados  Al Qaeda. Na guerra civil da Sria, h brigadas vindas do Iraque e outras formadas at por europeus convertidos ao islamismo. Estima- se em mais de 10.000 os extremistas estrangeiros que atuam da Sria (veja a entrevista na pg. 19). Teme-se que, quando decidirem voltar ao seu pas, os europeus radicalizados e com experincia de combate passem a se dedicar a organizar atentados terroristas. Na Lbia, o vcuo de segurana deixado pela queda de Muamar Kadafi, em 2011, foi preenchido por grupos extremistas que, no ano seguinte, mataram o embaixador americano Christopher Stevens. As armas entregues aos rebeldes foram levadas para o sul, no Mali, onde j havia combatentes islamistas tentando instaurar um califado baseado na sharia. Sem grandes percalos para obter dinheiro e armas, a Al Qaeda nunca arregimentou tantos fanticos. 
O desafio dos governos ocidentais  evitar a proliferao de fanticos que agem em nome da religio. As fileiras onde eles so recrutados aumentam em ritmo acelerado. Na Inglaterra, por exemplo, a populao muulmana cresceu 145% nos ltimos vinte anos. Dissociar esses cidados dos fundamentalistas violentos  um dos cuidados a ser tomados, at para no alimentar a retrica agressiva. Isso explica a cautela do primeiro-ministro ingls David Cameron ao repudiar o ataque no Qunia. "Eles (os terroristas) no representam o Isl nem os muulmanos da Inglaterra ou de qualquer outro lugar do mundo", disse Cameron. Durante o atentado em Westgate, um menino ingls de 4 anos, que aparece na foto de abertura desta reportagem, disse a um dos terroristas que ele era um "homem muito malvado", porque tinha atirado na perna de sua me. O terrorista deu-lhe duas barras de chocolate, como se com isso pudesse reverter a opinio do garoto, e retrucou que o Isl no  uma religio m. Esse dilogo, que fora do contexto de um cenrio de matana j soaria absurdo, encapsula a batalha ideolgica que move os fanticos islmicos. Para eles, o dever religioso se sobrepe aos direitos individuais. Para as democracias ocidentais, o que conta  o indivduo, inclusive sua liberdade de escolher em que acreditar. O menino estava certo. 

A NOVA FACE DO TERRORISMO ISLMICO
Por que jovens de classe mdia e de famlia com valores ocidentais consolidados mergulham em uma forma de fanatismo que os leva a matar os prprios conterrneos? A inglesa Samantha Lewthwaite, de 29 anos, suspeita de ter coordenado o ataque ao shopping em Nairbi, era catlica e converteu-se ao islamismo aos 17. Conheceu o marido pela internet. Ela ficou viva em 2005, quando ele se explodiu em um vago de metro em Londres, matando 26 passageiros. Outro ingls cristo convertido ao islamismo, Michael Adebolajo matou um soldado a facadas em maio passado, em Londres. Em 2010, ele chegara a tentar se unir ao Al Shabab, na Somlia

COM REPORTAGEM DE TMARA FISCH


2. OS FALSOS PROGRESSOS
Acordo sobre a Sria na ONU  difcil de implantar.

	Negociaes diplomticas podem servir tanto para resolver pendengas quanto para esconder malfeitos. Depende das intenes de quem as faz. Na semana passada, dois acertos foram realizados entre diplomatas, ambos de viabilidade duvidosa. Na sexta-feira 27, o Conselho de Segurana da ONU aprovou uma resoluo que obriga a Sria a entregar seu arsenal de armas qumicas para ser destrudo. No entanto, o texto no prev punies objetivas, com sanes ou o uso da fora, ao regime do ditador Bashar Assad caso ele no cumpra o combinado. Estados Unidos, Inglaterra e Frana queriam que a proposta fosse respaldada no captulo 7 da Carta da ONU, que permite o uso de todos os meios, inclusive o militar, para assegurar a aplicao da deciso. A Rssia no concordou. Com isso. Assad poder apenas fingir que coopera com o plano. 
     Na sexta-feira passada, os presidentes americano e iraniano se falaram por telefone.  a primeira vez em que h um contato direto entre os chefes de Estado dos dois pases em 34 anos. No dia anterior, os Estados Unidos e o Ir estabeleceram uma agenda de negociaes para tratar do programa nuclear iraniano, cujo objetivo no declarado  a construo de uma bomba nuclear, uma possibilidade que apavora, com razo, as potncias ocidentais. Conversas iniciadas em anos anteriores serviram apenas para o pas persa ganhar tempo.  de ver se a estratgia se repetir.


